terça-feira, 12 de abril de 2011

Diagnóstico de gestão mostra déficit de R$ 4,5 bilhões nas contas do Estado

BEM PARANÁ, 12 de abril de 2011

Números presentados representam compromissos assumidos e não honrados. O levantamento mostra que faltam recursos para concluir obras essenciais, como hospitais de várias regiões. Despesas de água, luz e telefone deixaram de ser pagas e somam R$ 102 milhões, a maior parte referente ao ano de 2010


A equipe do governador Beto Richa que assumiu o Governo do Paraná em 1º de janeiro apurou um déficit de R$ 4,5 bilhões nas contas do Estado. De acordo com o diagnóstico da situação estrutural e administrativa apresentado nesta terça-feira (12) pelo secretário chefe da Casa Civil, Durval Amaral, e pelo secretário do Controle Interno, Mauro Munhoz, os números representam compromissos assumidos e não honrados, ou não previstos no orçamento do Estado para este e para os próximos anos. “A herança que recebemos é caracterizada por obras inacabadas e com estrutura precária, sucateamento de estruturas operacionais e administrativas, planejamento desarticulado e sem iniciativas estratégicas, descumprimento de princípios da Lei de Responsabilidade Fiscal e práticas antieconômicas lesivas ao patrimônio”, disse o secretário Mauro Munhoz.

O levantamento mostra que faltam recursos para concluir obras essenciais, como hospitais de várias regiões. As despesas não pagas de água, luz e telefone, somam R$ 102 milhões, a maior parte referente ao ano de 2010. A conta de restos a pagar chega a R$ 1,9 bilhão. O déficit inclui ainda dívidas trabalhistas, despesas sem empenho e contratos lesivos aos cofres públicos. Um Exemplo: um contrato de reprografia foi renovado sem licitação por seis anos consecutivos, ao custo de R$ 0,13 a cópia, quando o preço médio de mercado é de R$ 0,07 (sete centavos). “Esse contrato foi cancelado e substituído por um novo, em caráter emergencial, com custo 30% inferior ao contratado há cinco anos”, disse Munhoz.

Foram detectados até agora 419 casos de pagamento de funcionários de cargos de confiança que recebiam vantagens especiais na forma de encargos diferenciados e ilegais no período de 2005 a 2010. Por meio desse processo, que ficou conhecido como “turbinamento”, alguns servidores recebiam salários até quatro vezes superiores ao valor original do cargo para o qual foram contratados. Como exemplo, um servidor contratado com salário de R$ 1.073,77 passou a receber ilegalmente R$ 4.238,64. “Ao administrador público não é dado aplicar encargos diferentes para uns servidores e não para outros. Isso será objeto de impugnação das contas do governo passado”, disse o secretário Durval Amaral.

Os gastos com pessoal também motivaram um alerta emitido pelo Tribunal de Contas do Estado, por atingirem o nível de 46% das Receitas Correntes Líquidas, apenas 0,55% abaixo do limite prudencial estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Apesar dessa situação, um conjunto de leis, decretos e despachos governamentais foi assinado nos últimos 180 dias da administração anterior, concedendo aumentos salariais, com impacto de mais de R$ 1,2 bilhão ao ano nas contas estaduais.

Saúde – Por conta da má gestão, principalmente na área de planejamento, algumas áreas têm orçamento insuficiente para as despesas deste ano. Na saúde, por exemplo, os recursos para repasse ao Fundo Estadual de Saúde e aos Fundos Municipais de Saúde são suficientes para apenas oito meses. Será necessário fazer uma suplementação orçamentária, por remanejamento ou por meio de projeto de lei encaminhado à Assembleia Legislativa.

Na área de saúde, descrita como um retrato do caos, projetos com deficiências estruturais, obras inacabadas e equipamentos subutilizados ou em desuso são comuns a todos os hospitais recém-inaugurados. No restante, faltam equipamentos de informática e investimentos em reformas, ampliações ou obras de manutenção. Faltam ainda medicamentos especiais, material médico e de higiene e limpeza, além de haver contratos sem cobertura orçamentária em situações como aluguéis, oxigênio, limpeza e vigilância. “Temos hospital cujo piso não suporta a instalação de equipamento de esterilização, outro não tem estacionamento nem área de necrotério, casos em que não foi instalado ar condicionado no centro cirúrgico e até um hospital que não tem condições de fazer cirurgias”, disse o secretário da Saúde, Michele Caputo Neto.

Em 31 de janeiro, a Secretaria da Saúde tinha dívidas com credores no valor de R$ 53 milhões e despesas sem empenho de R$ 99 milhões. O orçamento de 2011 para o custeio, de R$ 372 milhões, é R$ 20 milhões inferior ao empenhado para 2010 (R$ 392 milhões).


Criminalidade sobe enquanto estrutura da segurança é sucateada
De acordo com o levantamento da equipe de governo, a escalada da criminalidade, principalmente na região de Curitiba, ocorreu ao mesmo tempo em que a estrutura da segurança pública era sucateada. Além da redução do contingente de policiais civis e militares, as delegacias estão superlotadas (40 foram interditadas), obrigando mais de 2.000 policiais a trabalhar na custódia e carceragem, que não são função da Polícia Civil. No Instituto Médico Legal de Curitiba havia 119 corpos não entregues aos familiares, alguns desde 2008. A frota de veículos policiais está sucateada e defasada em tecnologia embarcada e de equipamentos de informática. Faltam vagas em presídios, colônias penais agrícolas e industriais, por isso apenas 21% dos presos de penitenciárias trabalham.


Governo encerra período de suspensão de pagamentos
A partir de agora todos os contratos que estiverem regulados serão pagos
A apresentação do diagnóstico da administração pública, nesta terça-feira (12), marcou também o fim do período de suspensão dos pagamentos, decretado pelo governador Beto Richa em janeiro. De acordo com o secretário chefe da Casa Civil, Durval Amaral, “a partir de agora, automaticamente todos os contratos que estiverem regulares serão pagos”. Os que apresentam irregularidades, informou, serão auditados e objeto das providências necessárias.

“O balanço que apresentamos hoje é um marco divisor. Vamos agora olhar para o futuro e fazer o governo que todos os paranaenses esperam – um governo de conciliação, moderno e desenvolvimentista, como é a determinação do governador Beto Richa”, disse o secretário.

Amaral ressaltou que o diagnóstico apresentado pela atual administração não tem qualquer conotação de retaliação política. “Era necessário levantar dados para conhecer a fundo a realidade e prestar contas à sociedade paranaense, seguindo o princípio da transparência na administração pública. Não nos cabe fazer julgamentos, mas não podemos prevaricar”, afirmou.

De acordo com o secretário, casos que possam caracterizar improbidade administrativa ou descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, entre outras irregularidades, serão encaminhados aos órgãos competentes – como o Tribunal de Contas do Estado, o Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal – para apuração de responsabilidades.

Paraná tem cerca de 140 escolas sucateadas

BONDE, 12 de abril de 2011


A equipe do governo Beto Richa apresentou nesta terça-feira (12) os levantamentos de recursos feitos após a moratória de 90 dias decretada em janeiro. Na área da educação, foram encontrados R$ 57 milhões em despesas a serem pagas.

De acordo com o relatório, pelo menos 143 escolas estão sucateadas e prejudicam as aulas de milhares de alunos. São salas que apresentam goteiras e infiltrações e sofrem inundações, ginásios e refeitórios inadequados ou com paredes e pisos comprometidos, além de instalações depredadas, com problemas elétricos, hidráulicos e nas tubulações de esgoto.

Apesar das deficiências do setor, foram encontrados R$ 199 milhões em recursos disponibilizados pela União desde 2008 para construção de Centros de Educação profissional e formação de professores e não utilizados. Também há repasses do governo federal feitos há três anos e parados em dezembro de 2010.

No ensino superior, os restos a pagar e contas sem empenho somam R$ 5 milhões e o estado deixou de repassar mais de R$ 100 milhões para manutenção de instituições de ensino superior, Tecpar, Fundação Araucária e Funpar.

Juízes sofrem ameaças de morte

GAZETA DO POVO, 12 de abril de 2011

Intimidação de criminosos atrapalha trabalho de magistrados no Paraná. Trinta profissionais têm sido atemorizados


A independência de julgamento – primordial para que processos judiciais sejam avaliados de forma isenta e imparcial por magistrados – tem sido colocada à prova pela criminalidade. Alvos de constantes ameaças, juízes brasileiros sentem-se pressionados e enfrentam dificuldades para atuar contra o crime organizado. No Paraná, 30 magistrados têm sido ameaçados e sete deles correm perigo de morte iminente.

A grande maioria das intimidações é direcionada a profissionais da área criminal, mas também há casos que envolvem membros das varas de família. O número representa 14% dos 219 juízes criminais do estado. A informação foi revelada com exclusividade para a Gazeta do Povo pelo desembargador João Kopytowski, que desenvolve um estudo desde o ano passado para propor melhorias na segurança do Judiciário paranaense.

Além das ameaças pessoais, que colocam em risco inclusive familiares dos magistrados, os fóruns do Paraná estão quase todos vulneráveis. Segundo o desembargador, apenas 19,2% dos fóruns do estado tinham segurança de policiais até o fim do ano passado. Não bastasse isso, menos de 60% das unidades judiciárias têm segurança patrimonial. “O Judiciário está muito inseguro. Os criminosos acham que somos fortes e protegidos, mas não somos”, salienta. Entre os exemplos citados pelo desembargador estão episódios recentes que ficaram sob sigilo, que quase sempre cerca os acontecimentos da Justiça do estado.

Casos recentes - O magistrado revelou que no fim do ano passado a Vara de Execuções Penais (VEP) de Curitiba foi pauta de uma reunião da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em um estado vizinho. No tal encontro dos criminosos, teria sido definido que a VEP seria alvo de rajadas de metralhadoras e um juiz e dois promotores seriam mortos. Segundo Kopytowski, a Polícia Federal alertou a Justiça paranaense antes de o crime se concretizar.

Em outro caso, um estagiário de Direito foi preso após furtar 46 armas do fórum de São José dos Pinhais, na região metropolitana de Cu­­ritiba. O estudante teria vendido as armas para integrantes do PCC que passaram pelas penitenciárias de Piraquara. Essas informações foram reveladas durante o 1.º Encontro Estadual dos Ma­­gistrados Criminais, ocorrido no fim de março.

“Por mais firmeza e independência que o juiz tenha, ele não consegue trabalhar direito [sob ameaças]”, explica Kopytowski. A falta de se­­gurança de juízes, fóruns e funcionários tem si­­do tão preocupante que o próprio Conselho Naci­onal de Justiça (CNJ) recomendou há um ano que os tribunais implantassem políticas para melhorar a segurança do Judiciário nacional (veja o box).

Sem policiais - Para o presidente da Associação dos Magistrados do Paraná, o juiz Gil Guerra, a segurança do Judiciário é amadora. “Temos visto o assunto com franca preocupação. A segurança da Polícia Militar não existe mais”, afirma. Ele se refere à determinação do governo estadual, ocorrida no começo do ano, obrigando todos os servidores públicos a voltarem a suas funções de origem, incluindo os policiais. Na avaliação dele, o problema não se restringe à proteção dos juízes, mas de todos que frequentam as unidades da Justiça.

“Posso dizer que o atual presidente do Tribunal de Justiça do Paraná [desembargador Miguel Kfouri Neto] está com toda disposição para atender essa questão”, ressalta Guerra. Kfouri Neto foi procurado pela reportagem, mas não atendeu às ligações.

Mapa real - O diretor da Se­­cretaria de Segu­rança Nacional dos Ma­­gistrados da Asso­ciação dos Magis­trados do Bra­­sil, juiz Getúlio Corrêa, pretende organizar um evento no segundo semestre deste ano para mapear todos os problemas de segurança judiciária no Brasil. “Queremos criar a cultura de segurança para a Justiça.” O objetivo é fazer uma avaliação das estruturas em todas as comarcas brasileiras.


Alguns atentados
a magistrados no Brasil
nos últimos anos
Out 2010 – o juiz Marcos Caires Luz tem a casa alvejada, em Santa Isabel do Ivaí (PR).

Ago 2010 – o presidente do TRE-SE, Luiz Mendonça, teve seu carro atingido por 30 tiros de vários calibres. Ele foi atingido no ombro por estilhaços.

Dez 2005 – um homem tentou invadir o Hotel de Trânsito do Exército, em Ponta Porã (MS), para matar o juiz federal Odilon de Oliveira.

Mar 2003 – o juiz-corregedor da Vara de Execuções Criminais de Presidente Prudente (SP), José Antonio Machado Dias, é assassinado na saída do fórum. O assassinato teria sido encomendado por Marcos Camacho, o Marcola, um dos líderes do PCC.

Mar 2003 – o juiz Alexandre Martins de Castro Filho, da 5ª Vara de Execuções Penais do Espírito Santo, é assassinado.
Direito legal


Sem testes, juízes querem portar armas
A facilidade dos juízes se armarem, um direito legal, pode ser uma medida de segurança para ajudar a prevenir crimes contra magistrados. Porém, em alguns estados, como no Paraná, a Polícia Federal (PF) têm exigido que os magistrados cumpram os mesmos requisitos dos cidadãos comuns para receber o porte de arma.

A Associação dos Magistrados do Brasil (AMB) defende que os juízes não precisam ser submetidos às mesmas regras. A razão disso é explicada pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional. A legislação é complementar e está abaixo apenas da Constituição.

O diretor da Secretaria de Segurança Nacional dos Magistrados da AMB, o juiz Getúlio Corrêa, explica que a hierarquia das leis já justificaria a prerrogativa da classe. Na avaliação dele, juízes não precisariam passar por exames psicotécnicos porque já são submetidos a esses testes quando entram na magistratura. A PF tem solicitado os testes para alguns juízes, além de outros exames como o de manejo de arma.

Para tentar reverter o quadro, Corrêa quer se reunir nesta semana com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em Brasília.


Recomendação do CNJ não sai do papel
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) recomenda, desde abril de 2010, que os tribunais regionais criem um fundo de segurança estadual para o Judiciário. A ideia faz parte da Resolução 104, que visa melhorar a segurança do Judiciário brasileiro. A data limite para a implantação das melhorias seria até o fim deste mês, mas até agora nada saiu do papel.

A verba seria destinada para aperfeiçoar equipamentos e es­­truturas, proporcionando mais proteção aos magistrados, funcionários e usuários da Justiça. O recurso também serviria para um programa de proteção ao juiz ameaçado.

O desembargador João Kopytowski, que analisa a estrutura de segurança do Judiciário paranaense, propõe criar uma comissão permanente de segurança. Entretanto, a principal proposta do desembargador é a criação do Batalhão de Guarda Judiciária. Segundo ele, seriam necessários cerca de 400 policiais, direcionados para a segurança dos fóruns. Entre as atribuições do batalhão estaria o trabalho com diligências preventivas e o apoio ao cum­­primento de ordens judiciais, como em casos de reintegrações de posse.

13 anos de pressão - O juiz federal do Mato Grosso do Sul Odilon de Oliveira está há 13 anos sob a proteção de policiais federais. Trabalhando em Ponta Porã, os traficantes que prende não o deixam em paz. Ele já morou em fórum, hotel de trânsito do Exército e nada adiantou. Oliveira acredita que o Brasil demorou demais para tomar medidas preventivas com relação à proteção dos magistrados. “O juiz com medo não enfrenta o crime organizado. Mas só a segurança do juiz não adianta. Não resolve o problema.”

Oliveira defende mais rigor nas ações de combate ao crime organizado e mais severidade nas penas. “Isso vai refletir na segurança do juiz e da sociedade.” Ele acredita que o crime de ame­­aça contra juiz deveria ter penas mais pesadas. “Uma ameaça contra juiz, contra delegado, contra promotor e contra uma pessoa comum é a mesma coisa. Faz pagar uma cesta básica”, critica.

Chefe regional do IAP é demitido por atuar em filme erótico

JORNAL DE LONDRINA, 12 de abril de 2011


O governo do estado decidiu demitir ontem o chefe do escritório regional do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) em Cascavel, Valter Pagliosa. O anúncio veio depois de vazar na internet a informação de que Pagliosa havia participado como ator de um filme erótico. O substituto no cargo ainda não foi definido.

Pagliosa foi nomeado em 18 de fevereiro pelo governador Beto Richa (PSDB) por indicação do deputado estadual Adelino Ribeiro (PSL). Segundo a assessoria de imprensa do governo do estado, o currículo de Pagliosa como ator era desconhecido no Palácio Iguaçu.

A polêmica sobre o chefe de escritório começou quando o senador Roberto Requião (PMDB) divulgou no Twitter informações sobre a participação do ator em um filme erótico. Ainda ontem, Pagliosa foi chamado a se explicar pelo governo e acabou demitido.

O filme, de 2006, intitulado A Outra Metade, é classificado como “erótico”, embora não seja pornográfico, segundo Pagliosa. Em entrevista à Gazeta do Povo, antes do anúncio da demissão, o ator disse que o seu passado não interferia na sua atuação no governo. Apesar disso, afirmou que não repetiria mais a participação, já que se converteu e hoje é evangélico.

“Fui ator profissional durante dois anos e meio. Fiz teatro, peças infantis e dois filmes: um de conteúdo religioso e outro com classificação erótica. Porém o filme não tem sexo explicito. É uma história de amor com cenas de sexo simulado. Nada que o Big Brother não mostre também”, disse Pagliosa.

Embora tenha pouca experiência na área ambiental, Pagliosa afirmou que se considerava apto para a função que vinha exercendo. “Fiz um curso técnico de gestão ambiental e fui estagiário do IAP. Pude aprender muito naquele período. Também participo de uma ONG que se dedica à proteção do meio ambiente”, contou.

Sobre os motivos de sua nomeação, disse que acreditava estar sendo recompensado pelo esforço que teve na campanha de 2010. “Fui presidente da associação de moradores do bairro São Cristovão, o maior bairro de Cascavel. Trabalhei bastante na campanha do deputado Adelino Ribeiro e do governador Beto Richa. Acho que este esforço foi reconhecido”.

Governo abriga 6,7 mil servidores sem concurso na ''elite'' da burocracia

O ESTADO DE S. PAULO, 12 de abril de 2011

31% dos cargos exercidos por quem tem função de chefia ou pela elite dos assessores do Executivo federal estão ocupados por não concursados, e 64% pelos servidores de carreira; postos mais cobiçados consomem R$ 100 mi de salários a cada ano


O retrato da máquina pública no início do governo Dilma Rousseff revela a existência de 6.689 funcionários não concursados nos cargos de confiança da Presidência e dos ministérios - o equivalente a quase um terço do total de postos preenchidos por nomeações. Destes, quase 500 estão nas duas faixas salariais mais altas do funcionalismo.

Dilma herdou da gestão Luiz Inácio Lula da Silva uma estrutura burocrática que permite a nomeação de cerca de 21,7 mil pessoas para cargos de confiança - os chamados DAS, exercidos por quem tem função de chefia ou direção e pela elite dos assessores da presidente, de ministros e de secretários.

Em fevereiro deste ano, 31% desses cargos eram ocupados por não concursados, e 64% por servidores de carreira, segundo dados do Portal da Transparência do governo federal. Há ainda uma pequena parcela de servidores cedidos por órgãos de outras esferas - do Legislativo, de governos estaduais e de prefeituras municipais, por exemplo.

Os postos DAS, que em conjunto consomem quase R$ 100 milhões por ano em salários, estão entre os mais visados pelos partidos que buscam acomodar seus representantes na Esplanada dos Ministérios. Como Dilma procurou barrar o atendimento de indicações políticas para o segundo escalão até a votação do salário mínimo na Câmara, em fevereiro, é provável que o quadro retratado pelo Portal da Transparência ainda não reflita com exatidão o rateio de espaços na "cargolândia" da Esplanada.

O PMDB, em meio a negociações por espaço em ministérios e estatais, votou de forma unânime a favor do mínimo de R$ 545. Os próximos meses mostrarão se essa votação teve ou não efeitos no segundo escalão.

Limites. Apesar de chamados de cargos de livre nomeação, os DAS não podem ser majoritariamente tomados por pessoas não concursadas. Um decreto determina que, das vagas de remuneração mais baixa, de até R$ 4 mil, pelo menos 75% sejam ocupadas por servidores de carreira - pessoas que ingressaram no serviço público independentemente de apadrinhamento partidário.

Na faixa salarial intermediária, de R$ 6,8 mil, os servidores de carreira têm direito a pelo menos metade dos cargos. Acima desse valor, para quem ganha até o teto de R$ 11,2 mil, não há cotas mínimas. Ainda assim, os não concursados são minoria nas duas faixas salariais mais altas (veja quadro).

As cotas para servidores de carreira nos cargos de confiança não existiam até 2005, quando foram criadas por decreto do ex-presidente Lula. No entanto, o próprio Lula estourou os limites que estabeleceu para o ingresso de servidores não concursados nos cargos de confiança com remuneração mais baixa.

Dados do Ministério do Planejamento indicam que, em dezembro de 2010, 26,2% e 28,2% dos cargos DAS 1 e DAS 3, respectivamente, eram ocupados por não concursados. Pelo decreto editado por Lula em 2005, essa parcela não poderia ultrapassar 25%.

Por outro lado, o governo encerrado em 2010 poderia ter preenchido com até 50% de não concursados os cargos DAS 4, mas manteve esse grau de ocupação em 31,6%.

Nos cargos DAS 5 e 6, não há regras estabelecidas - ou seja, se um ministro quisesse preencher todos esses postos com pessoas de fora da máquina pública, não haveria nenhuma restrição legal. Mas os não concursados nessas duas faixas eram apenas 33,4% e 39,7%, respectivamente, em dezembro passado.

Os números constam da última edição do Boletim Estatístico de Pessoal, publicação que detalha os custos e os quantitativos dos servidores federais até o término do segundo mandato de Lula.

Cota
75% dos cargos DAS 1, 2 3 devem ser exercidos por servidores concursados, segundo decreto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Prefeito de Paranapoema é denunciado por nepotismo

O DIÁRIO DE MARINGÁ, 12 de abril de 2011


O prefeito de Paranapoema (a 111 quilômetros de Maringá), Jocelino Francisco da Costa (PDT), foi denunciado na Justiça por prática de nepotismo.

Ele teria contratado pelo menos sete pessoas com quem mantém algum grau de parentesco para cargos comissionados, sem concurso público.

Costa, que assumiu o cargo cinco meses atrás em virtude da cassação pela Câmara Municipal do mandato do prefeito Hélio de Souza Ramalho (PTB), foi notificado em março pelo Ministério Público da Comarca de Paranacity, que pediu uma relação de todos os funcionários da prefeitura, com destaque para os que foram admitidos após a mudança de prefeito.

De acordo com a denúncia feita por um popular, a atual administração teria contratado 48 pessoas, todas sem concurso. Ontem a Chefia de Gabinete da prefeitura informou que a administração presta todos os detalhes pedidos pelo MP, justificando que as admissões foram realizadas para suprir necessidades do serviço público, principalmente nas áreas da Educação e Saúde. Informou também que Costa pretende realizar um concurso público para suprir todas as carências do quadro organizacional do município.

O controle das verbas do Fundeb

O ESTADO DE S. PAULO, 12 de abril de 2011


Criado em 2007 para substituir o antigo Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef), o Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) aumentou em dez vezes o valor dos repasses federais para as redes estaduais e municipais de ensino. Mas a lei que criou o Fundeb não previu um sistema de controle sobre o modo como esses recursos são aplicados pelos Estados e municípios. Sem um órgão específico para acompanhar o uso de verbas federais, a fiscalização - quando existe - fica a cargo de conselhos locais, que sofrem todo tipo de pressão política.

Por causa disso, cerca de R$ 17 bilhões já foram transferidos sem a fiscalização pelo governo federal, desde a criação do Fundeb - e, em 2011, serão mais R$ 7,8 bilhões, sem qualquer controle direto, apesar das advertências encaminhadas às autoridades educacionais pelo Ministério Público Federal, pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pela Controladoria-Geral da União (CGU), que seleciona prefeituras por meio de sorteio para auditar suas contas.

Como era de esperar, a falta de um órgão específico de fiscalização dos repasses dos recursos do Fundeb acabou propiciando fraudes do tipo de superfaturamento no fornecimento de merendas e na contratação de transporte escolar, desvio de dinheiro para compra de uísque e festas de carnaval e apropriação indébita de dinheiro público - especialmente no Nordeste e no Norte.

Em muitos Estados e municípios dessas duas regiões, a falta de controle deu - e continua dando - margem a inúmeras irregularidades - como manipulação de concorrências, licitações públicas fraudulentas, apresentação de notas frias e desvio de dinheiro destinado a pagamento de gratificações e vantagens funcionais dos professores do magistério público e municipal. Segundo os coordenadores dos programas de fiscalização por amostragem da CGU, 41% das prefeituras sorteadas para serem auditadas, entre 2007 e 2008, registravam casos de licitações fraudulentas e 58% gastavam os recursos do Fundeb de maneira irregular.

Os auditores da CGU descobriram que em Bequimão, uma pequena cidade do Maranhão, com 21 mil habitantes, R$ 2,6 milhões foram desviados por meio de folhas de pagamento "frias" - os professores das escolas municipais nunca viram a cor do dinheiro. No Pará, intimada a apresentar os comprovantes de gastos dos recursos repassados pelo Fundeb, a prefeitura da cidade de Cachoeira do Piriá alegou que eles desapareceram num incêndio. Em Alagoas, investigações realizadas em 2009 pelo Ministério Público e pela Polícia Federal em 47 cidades resultaram em 21 ações de improbidade administrativa. "O Fundeb é um dos programas mais fraudados no Nordeste, uma vez que a fiscalização praticamente inexiste", diz o procurador regional da República e coordenador do Fórum de Combate à Corrupção em Pernambuco, Fábio George.

Para tentar submeter as prefeituras a algum tipo de controle, o TCU decidiu que a fiscalização seria de responsabilidade do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Mas, alegando que a lei que criou o Fundeb não prevê essa tarefa, as autoridades educacionais se recusaram a executá-la. "Se me perguntarem sobre merenda, transporte escolar ou qualquer programa do FNDE, vou responder. Sobre controle e problemas do Fundeb, isso não é de minha competência", diz o chefe da auditoria do FNDE, Gil Loja Neto.

No MEC, a ideia é que o controle do uso dos recursos do Fundeb deveria ficar a cargo da CGU. Mas, alegando que na administração federal o órgão repassador de recursos é responsável pelo acompanhamento do dinheiro transferido, a CGU não tem interesse em assumir esse papel. Diante do impasse, em outubro de 2010 o TCU recomendou à Casa Civil que avaliasse a conveniência de criar - ou designar - um órgão federal específico para controlar a aplicação dos recursos do Fundeb. Até hoje, a Casa Civil não se manifestou.

As irregularidades envolvendo o Fundeb dão a medida do caos reinante no sistema de financiamento da rede pública de educação básica.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Quando os vereadores vão para o xilindró

CORREIO BRAZILIENSE, 11 de abril de 2011

Desde 2009, início da atual legislatura municipal, são pelo menos 35 casos de políticos presos em flagrante pela polícia. Os maus exemplos pipocam de norte a sul do país. A face da impunidade pouco se altera, seja na rica região do Sudeste ou nas localidades mais pobres do Brasil


Estupro, assassinato, extorsão, assalto, tráfico de drogas, corrupção, lavagem de dinheiro, peculato, pedofilia, formação de quadrilha, exploração de jogo, embriaguez ao volante e degradação ambiental. Esses são alguns dos mais graves crimes previstos pelo Código Penal Brasileiro e leis especiais que foram infrigidos por pelo menos 35 vereadores do país, todos presos em flagrante, em pouco mais de dois anos de legislatura. A realidade é ainda mais assustadora se considerado que o levantamento, que inclui apenas casos que se tornaram públicos, não considerou os políticos que estão sob investigação, mas não estiveram atrás das grades. Causa espanto ainda a total ausência de punição aos parlamentares, que em sua grande maioria permanecem no cargo mesmo depois da prisão.

Os maus exemplos pipocam de norte a sul do país. Em Duque de Caxias, na Grande Rio de Janeiro, dois vereadores suspeitos de comandar milícias, responsáveis por cerca de 50 homicídios, venda de segurança, gás e TV a cabo ilegais, estão apenas afastados de suas funções na Câmara Municipal, apesar de não receberem os salários. Jonas Gonçalves da Silva, o Jonas é Nóis, e Sebastião Ferreira da Silva, o Chiquinho, foram presos em 21 de dezembro, durante a Operação Capa Preta, ao lado de outras 30 pessoas, acusadas de participação em grupo paramilitar. Passados quase quatro meses, o consultor jurídico da Câmara de Duque de Caxias, Josemar Mussuauer, explica que ainda não existe pedido de cassação do mandato dos vereadores, detidos no presídio federal de segurança máxima de Mato Grosso do Sul. “Estamos esperando a conclusão do processo criminal, conforme previsto na nossa lei orgânica”, diz o consultor jurídico.

Cueca - Saindo do Sudeste, a região mais rica do país, e caminhando em direção ao interior da Paraíba, uma das mais pobre do país, a face da impunidade pouco se altera. O vereador Gilmar Nogueira, de Desterro, foi preso por protagonizar a reprise de uma das cenas mais desmoralizadoras do escândalo do mensalão — o transporte de dinheiro na cueca. Ele foi pilhado pela Polícia Federal em 30 de outubro, com pouco mais de R$ 4 mil, além de uma lista com nomes de 212 eleitores. Nogueira trabalhava como cabo eleitoral da campanha ao governo do então candidato à reeleição José Maranhão (PMDB). A prisão do político repercutiu em todo o país, mas ele reassumiu a sua cadeira no Legislativo de Desterro. Segundo a Polícia Federal, os votos dos eleitores seriam comprados por R$ 20, à época. Já em Dourados (MS), o vereador Humberto Teixeira Júnior foi preso durante a Operação Uragano da Polícia Federal por desvio de recursos públicos e pagamento de propina. Ele responderá por peculato e corrupção passiva.


Extensas fichas criminais
A ficha criminal do vereador Valdinar dos Santos Carvalho, o Mosquito, começou a ser preenchida logo após a posse na Câmara Municipal de Santa Quitéria, no Maranhão. Em 2009, ano de estreia no Legislativo municipal, ele foi preso por assalto a banco e, a partir daí, não parou mais. Conseguiu a liberdade, reassumiu o cargo e, já em 2010, foi novamente preso. Desta vez, a acusação era roubo de carro e formação de quadrilha, considerado crime hediondo. Ele acabou interceptado no município de Dom Eliseu, com um carro roubado, mas novamente voltou às ruas. Como se não bastasse, em 17 de fevereiro, foi parar novamente atrás das grades, por mais um assalto a banco. Quinze dias antes da prisão, ele assaltou a agência bancária do Bradesco de Santa Quitéria.

Para o cientista político Rubens Figueiredo, a incrível performance do político maranhense não pode ser atribuída à incapacidade do brasileiro em escolher seus representantes. Segundo ele, parlamentares envolvidos com crimes revelam, na verdade, a total falta de preocupação dos partidos com sua imagem. “Existe uma falta de controle, principalmente partidário, para impedir que candidatos com ficha criminal concorram a uma vaga nas eleições proporcionais. Os partidos não cuidam de sua imagem. Preferem candidatos com folha corrida e muitos votos, do que aqueles limpos e sem votos”, analisa. A atual situação do vereador Carvalho é impossível de ser decifrada. A Câmara Municipal da cidade tem apenas uma secretária e um secretário, que não foi encontrado durante a semana. Nenhum vereador compareceu à Casa na sexta-feira.

Figueiredo diz que vereadores presos que reassumem suas funções no Legislativo depois de soltos só confirmam a falta de punição. “Os políticos são punidos na esfera penal e na política, não. Isso também pode explicar a baixa credibilidade dos políticos, alguns deles com capivara (ficha criminal) e não com currículo”, conclui. Por sua vez, o também cientista político Gaudêncio Torquato, defende a tese que o brasileiro ainda está “ascendendo à escada da aprendizagem cívica e, a cada eleição, sobe um degrau para apurar sua escolha”. Ele diz que apesar dos desvios de alguns políticos, a cada ano, o número de envolvidos com crimes é menor. “Acredito que, em eleições anteriores, os parlamentares suspeitos de crimes deveriam ser quatro ou cinco vezes maior”, diz.

Na verdade, mesmo nos grotões do país, a notícia do envolvimento de um vereador com o crime choca as populações. No município de Curralinho, na Ilha de Marajó (PA), a prisão do vereador Janil Macedo Martins (PDT) causou indignação. Em agosto, ele foi acusado de torturar sua sobrinha, uma adolescente de 12 anos. Ela ficava em cárcere privado e sofria maus-tratos. Em Ibirapuitã (RS), a prisão do vereador Ibanez da Silva Portella causou revolta. Ele foi detido em agosto, quando deixava o motel Soledade, em companhia de uma adolescente de 16 anos. Foi indiciado por crime de exploração sexual de menor.


Vereador londrinense é chamado ao Gaeco para depor sobre ‘mensalinho’

BONDE, 7 de abril de 2011

Vereador Jacks Dias (PT), já indiciado por corrupção, é investigado por supostamente ter cobrado propina de empresa de segurança


O vereador Jacks Dias (PT), compareceu ontem à sede do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), para prestar depoimento. O objetivo da oitiva do vereador, pelo delegado do GEACO, Allan Flore, seria o de colher os últimos depoimentos sobre o suposto caso do ''mensalinho'', que teria sido cobrado da empresa Centronic pelo ex-secretário de Gestão Pública e hoje vereador.

No início do procedimento Jacks Dias era investigado por cometer eventual crime de concussão - extorsão praticada por agente público. Porém, de acordo com o delegado responsável pelas investigações, Jacks e os responsáveis pela empresa, foram indiciados por corrupção passiva e ativa, respectivamente.

Flore disse que o vereador permaneceu em silêncio durante todo o interrogatório. ''Ele tem esse direito de querer ser ouvido apenas em juízo.'' O delegado afirmou que deve encaminhar o relatório final ao Ministério Público dentro de uma semana.

De acordo com a denúncia, Jacks teria recebido cerca de R$ 80 mil como forma de garantir a manutenção do contrato firmado em 4 de agosto de 2006. Na época o proprietário da empresa Centronic, Nilson Rodrigues, chegou a declarar que pagou jantares em restaurantes a ''políticos do partido'', os quais seriam ''promovidos por políticos'', declarou, inclusive que uma das contas teria custado em torno de R$ 1 mil.

Sobre o depoimento o advogado do vereador, João Gomes, disse que a atitude de Jacks Dias permanecer calado partiu dele. ''Eu orientei o vereador a não falar. Até porque, a lei me garante que há presunção de inocência'', declarou.

Gomes diz, ainda, respeitar a posição e o trabalho desenvolvido pelo MP, porém não acredita numa possível condenação de Jacks na justiça. ''É vergonhosa a situação desse processo. Não existe nenhum indício ou provas que possam incriminar o meu cliente. Existe um pré-entendimento, de que o cara é político já é caracterizado como cafajeste'', afirma.


Jack Dias fica calado em depoimento no Gaeco
BONDE, 6 de abril de 2011

O vereador londrinense Jack Dias (PT) compareceu nesta quarta-feira (6) à sede do Gaeco para prestar depoimento. Porém, por orientação do advogado, ficou calado diante do delegado Alan Flore.

Jacks foi convocado para explicar a acusação de que teria recebido propina da empresa de segurança Centronic quando ele era secretário na gestão Nedson Micheleti (PT).

O depoimento no Gaeco durou cerca de 20 minutos. Segundo seu advogado, João Carlos Gomes, a estratégia foi porque seu cliente não sabia o teor do processo, por isso não poderia se manifestar.

Governo Dilma: 100 dias de vacilação

O ESTADO DE S. PAULO, Celso Ming, 10 de abril de 2011


O governo Dilma completa hoje 100 dias, prazo que habitualmente se confere às autoridades para que mostrem a cara da nova administração.

Alguém já afirmou que este é a continuação do governo Lula com mais gerenciamento e saudável toque feminino. Outros, que a exigência de mais resultados na política externa não é mudanças à toa. Mas essas são qualificações insuficientes.

O governo Dilma assumiu uma economia aquecida demais pelas despesas correntes turbinadas nos dois últimos anos da gestão de Lula. O corte de R$ 50 bilhões nas previsões orçamentárias deste ano mais o compromisso de garantir superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) de R$ 117,9 bilhões foram um bom começo. Mas é pouco para conter o consumo, como o governo vem reconhecendo quando tenta segurar o crédito.

A gestão Dilma enfrenta uma mistura inédita (nos últimos 16 anos) de surpresas e novas incertezas. A primeira delas foi o resultado do afrouxamento monetário dos grandes bancos centrais do mundo, especialmente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que multiplicou o volume de recursos no planeta. Boa parte dessa dinheirama tomou o rumo do País e é um dos fatores que ajudam a explicar a enxurrada de dólares no câmbio interno.

Outra surpresa é a disparada dos preços das commodities agrícolas, em mais de 29% nos últimos seis meses, que ajudou a puxar os preços dos alimentos, maiores responsáveis pelas pressões inflacionárias. A terceira é a revolução da comunidade islâmica na África e na Ásia e seu impacto sobre os preços do petróleo.

A principal consequência desses três imprevistos é a mistura de uma forte valorização do real (queda do dólar no câmbio interno) com disparada inflacionária, que, em 12 meses terminados em março, ultrapassou os 6,3% (veja o gráfico).

O mais importante não são as surpresas nem as incertezas que vêm junto, mas o modo como o governo lida com elas. O tom de lamentação e de "a culpa não é minha", misturado com declarações do tipo "isso não é nada; logo passa", foi e continua sendo a primeira atitude inadequada. A segunda é não saber identificar o principal inimigo. Não sabe se ataca a excessiva valorização cambial ou se ataca a inflação. Daí as vacilações e a meia sola nas respostas dadas.

Manifestação dessa falta de objetividade é a força exagerada aos chamados recursos prudenciais, usados para não acionar os mecanismos mais eficazes e, assim, evitar efeitos colaterais indesejados, mas provocando outros mais, talvez mais sérios. Outra resposta indevida é usar o caixa das empresas estatais e privadas - caso da Petrobrás e das usinas de álcool - para fazer política de preços.

A atitude tolerante do Banco Central à inflação e o gradualismo da administração da política monetária, por sua vez, tiraram eficácia do sistema de metas de inflação, na medida em que são os principais responsáveis pelo descompasso entre as expectativas dos "fazedores de preço" e os objetivos da autoridade monetária. Assim, se havia uma incerteza no ponto de partida, agora há outra no de chegada: não existe segurança de que a inflação seja contida dentro do horizonte sugerido pelo Banco Central, principalmente, se os preços do petróleo permanecerem acima de US$ 100 por barril, como é mais provável.

O modo gradualista e quase minimalista de enfrentar a excessiva valorização do real (baixa do dólar) parece esgotado - como esta coluna já levou em conta em outras oportunidades - e, mais do que isso, reforça a tendência de baixa do dólar, por atrair mais moeda estrangeira. Quanto mais altas as reservas tanto mais melhora a percepção sobre as boas condições da economia brasileira; e quanto mais atua para reduzir a volatilidade das cotações da moeda estrangeira, mais o Banco Central reduz a percepção de risco dos aplicadores.

Afora isso, este começo de Dilma se caracterizou por fortes intervenções no setor produtivo. As coisas ficaram algo mais artificiais e mais dependentes do governo. São práticas que a gente sabe como se implantam, mas não sabe quando e como serão erradicadas.

Reforma política: se reformarem, é para piorar

O ESTADO DE S. PAULO, João Ubaldo Ribeiro, 10 de abril de 2011


Desde que me entendo, ouço falar em reformas e as únicas que lembro ter visto efetivamente realizadas são as ortográficas. Já devo ter pegado umas quatro ou cinco e ainda encontrei muitos livros em orthographias extranhas, na bibliotheca de meu pae. Aprendi a ler no tempo em que a palavra "toda" se escrevia "tôda", para não ser confundida com o nome de uma tal ave, jamais vista por quem quer que seja. Jorge Amado perdeu a paciência, depois de fazer força para se adaptar a diversas ortografias. Uma vez, quando ele estava acabando de redigir um artigo ou prefácio, como sempre incentivando algum escritor novato, eu cheguei e ele me disse, datilografando as últimas palavras do texto, arrancando o papel da máquina e o entregando a mim:

- Ah, ótimo que você apareceu. Bote os acentos nessa merda aí, que eu não tenho mais saco para reaprender a soletrar de cinco em cinco anos.

Talvez eu esteja sendo injusto e tenha presenciado a realização e implantação de alguma reforma não ortográfica. Mas não aquelas que antigamente eram chamadas de "reformas de base" e consideradas essenciais para o desenvolvimento ou até a sobrevivência do País. Reforma agrária, reforma tributária, reforma judicial, reforma administrativa, reforma educacional e por aí se desfiam as benditas reformas, um longuíssimo rosário, impossível de recitar de cor. Ao mencionar-se sua necessidade ou urgência, todos assentem com ares graves - sim, sim, naturalmente, as reformas.

Contudo, passar da anuência à ação é aparentemente impossível. Reforma é uma coisa na qual se fala, mas não se faz. É excelente para comícios e entrevistas, mas não para agir. De vez em quando, um governante diz que fez uma reforma. Se não me engano, o ex-presidente Lula anunciou que fez uma ou duas reformas. Não lembro quais e provavelmente nem ele, são coisas do passado e ninguém viu reforma nenhuma mesmo.

Tenho uma teoria simples a respeito desse assunto. Todas as reformas, de todos os tipos, iriam prejudicar os que ganham com a manutenção do que está aí. Como o País, de cabo a rabo, em todos os níveis, em todas as classes e categorias, é essencialmente corrupto, a corrupção não deixa. Não existe setor da administração pública, novamente em todos os níveis e dimensões, que não seja território de uma ou diversas máfias, algumas das quais institucionalizadas e quase todas alimentadas por uma burocracia pervertida e feita para ensejar propinas, vender influência e fazer proliferar os despachantes e seus equivalentes mais graduados, os chamados consultores - entre estes últimos constando o hoje injustamente esquecido filho de d. Erenice.

Diante da realidade de que há quadrilhas em ação em todos os poderes, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora, não se vai acreditar que os beneficiários de determinado estado de coisas abdicarão de suas vantagens pelos belos olhos de quem quer que seja. Ouso mesmo dizer que, em muitas das áreas mafiosas, quem for fundo demais na investigação e na reforma corre o risco de morrer. São muitas as histórias de assassinatos realizados a mando de algum esquema de corrupção, pelo Brasil afora. Não escapa área nenhuma, a começar, simbolicamente, pelas próprias polícias.

E não escapa, naturalmente, o Congresso Nacional, onde, segundo as más línguas (observem meu uso copioso do adjetivo "alegado", ou quem vai preso sou eu) há alegados ladrões, alegados estelionatários, alegados salafrários e outros alegados, em tamanha fartura que desafia a contagem. Agora o Congresso está entregue à tarefa de realizar a reforma política, todo mundo fingindo que acredita que algo que prejudique os interesses imediatos dos congressistas será aprovado. E que o nosso sistema eleitoral está sendo aperfeiçoado.

Aperfeiçoado para eles. O que eles pretendem chega a parecer brincadeira, mas, infelizmente, não é. Querem, como se sabe, instituir o que já chamam afetuosamente de "listão". O eleitor não votará mais em um candidato, mas na lista elaborada pelo partido, na ordem estabelecida pelo partido. Atualmente, com a lista aberta, pelo menos o eleitor escolhe uma pessoa e essa pessoa, se bem votada, fatalmente se elege. Mas não vai haver mais esse direito. De agora em diante, com a lista fechada, o eleitor escolhe o partido com que se identifica e lhe entrega a escolha dos nomes que serão eleitos.

Só pode ser deboche. Que significa um partido político no Brasil, senão a conglomeração temporária de interesses que raramente são os da nação, mas de grupos, categorias ou indivíduos? Até os programas partidários não passam de florilégios de frases vagas e altissonantes, tais como o combate à desigualdade e a injustiça social, os projetos de inclusão, o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente e outras generalidades, quem ouve um, ouve outro e, se o nome do partido fosse apagado, não haveria quem o distinguisse. Apareceu até um partido que se declara não ser de esquerda, nem de direita, nem de centro. Talvez seja o mais honesto deles todos, por mostrar que reconhece a realidade política brasileira. Aqui nenhum partido quer dizer nada mesmo e podiam usar todos a mesma sigla: PPPPP, Partido Pela Predação do Patrimônio Público, porque tudo o que seus membros aqui almejam é abocanhar a parte deles.

Agora vêm com essa novidade da lista fechada. Se já não nos é permitido dar palpite no uso do nosso dinheiro, daqui a pouco nos tirarão o direito de escolher nossos governantes. Ou seja, seremos mandados pelas organizações oligárquicas e caciquistas dos partidos. Seremos uma "democracia" governada por conluios e manobras escusas. Ou por 171, como queiram.

A tragédia da corrupção

CORREIO BRAZILIENSE, Rubem Azevedo Lima, 11 de abril de 2011


O ex-presidente Lula zombou, nos EUA, dos relatórios da Polícia Federal, publicados pela revista Época, sobre o chamado mensalão, que ele dizia não existir e ser invenção da direita brasileira, entidade sem cara, à qual ele atribuía todos os males do país.

Como seu amigo, senador Collor de Mello, que usou a caça aos “marajás”, para eleger-se presidente, Lula, falso esquerdista, que manteve todas as medidas conservadoras dos governos anteriores, fez o mesmo com o fantasma da direita no Brasil e elegeu-se.

Lula fora avisado pelo então deputado Roberto Jefferson e o atual governador Marconi Perillo, de Goiás, sobre os ratos da quadrilha do mensalão. De Jefferson, Lula disse que poria sua mão no fogo pelo deputado, mas fingiu não acreditar em sua denúncia.

Agora, engastalhado entre a revelação dos federais e a visão do procurador da República, que chamou seus amigos envolvidos no mensalão de “quadrilha de bandidos”, Lula faz graça com o processo contra essa quadrilha, nas mãos do ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, que o relatará.

Lula não sabe, mas os federais acharam o elo que faltava: a origem do dinheiro do mensalão, o Fundo de Incentivo Visanet, do Banco do Brasil, portanto, dinheiro público, protegido, em tese, mas não na prática, por seu governo. Pode-se dizer, hoje, que o mensalão, sob a “cegueira” de Lula, foi o maior escândalo da República, no Brasil.

Tal episódio torna a era Lula quase tão corrupta quanto a de Macbeth, de Shakespeare, que, aliás, tinha também sua “direita”: todos os seus opositores e alguns inocentes, que ele liquidou, um a um, enquanto pôde, até chegar sua vez de sair de cena, desmascarado.

Não se sabe como vai acabar nossa tragédia. A de Shakespeare, cruenta, acabou politicamente bem. Dilma jurou combater a corrupção no país. Espera-se, pois, que nossa tragédia não acabe em comédia, na qual o bobo da corte não seja o Tiririca, mas todo o povo brasileiro.

Mães que perderam os filhos para a violência urbana

O DIÁRIO DE MARINGÁ, 10 de abril de 2011

Três mulheres e um destino em comum: elas são órfãs de filhos. Fabíula, Márcia e Tiago foram brutalmente assassinados e a partir daí Márcia Regina, Nelir e Sandra viram suas vidas se transformarem


Fabíula foi atropelada durante um racha na Avenida Colombo há quase 8 anos. Márcia foi morta em um dos crimes mais cruéis de Maringá. Tiago foi assassinado com três tiros na cabeça. Na escala de dor da psicologia, o sofrimento de perder um filho é maior do que a amputação de um braço ou uma perna. Para a psicóloga Ghyslene Rodrigues, é o trauma mais difícil de superar. "Um filho morrer antes dos pais vai contra a natureza humana", comenta. "A mãe morre sem esquecer do filho."

Superar é verbo inexistente no vocabulário de Márcia Regina Coalio que, em 2003, perdeu Fabíula. "Eu não superei a morte da minha filha, mas aprendi a me acostumar com a ausência dela."

Em 2007, dois assaltantes interromperam a vida de Tiago, 21, filho de Sandra Franchini. O jovem morreu na madrugada de 8 de junho, mas horas antes estava em casa, com a mãe. Tomou banho, trocou de roupa e saiu para encontrar os amigos.

Às 23h30, mãe e filho conversaram por telefone. Cerca de 4 horas depois, ele estava morto. "É um sofrimento como o de Maria, mãe de Jesus", compara.

"Mas não se trata de um privilégio." Nelir Constantino, dona de casa, mãe de Márcia Andréia, 10, morta em 2007, ilustra o sentimento pela morte da filha como estar à deriva no mar revolto. "Como se as ondas viessem a todo o mundo e eu só colocasse o nariz para fora, respirasse um pouco e afundasse de novo."



Mortes
44 pessoas foram assassinadas em Maringá em 2009
39 homicídios foram registrados na cidade em 2010
14 assassinatos ocorreram neste ano, até a última sexta-feira



‘Misto de perda e revolta’
Futuro médico, Tiago Franchini, 21 anos, foi assassinado no dia 8 de junho de 2007, em Maringá. Estudante do 4º ano de Medicina em Blumenau (SC), estava em Maringá para visitar a mãe, Sandra Franchini, no feriado de Corpus Christi. Naquela sexta-feira à noite, saiu com os amigos e foi brutalmente assassinado por dois bandidos.

A mãe, Sandra, na época secretária de Assistência Social, foi avisada da morte do filho pela irmã. "Um filho assassinado é uma amputação; é um misto de perda e revolta", conta. "Digo isso porque tenho certeza que esse não era o plano de Deus para o Tiago."

O jovem foi abordado por ladrões na saída de uma boate da Avenida Cerro Azul. Tiago chegou sozinho em um Golf preto, às 2 horas. Os assaltantes teriam esperado que ele saísse, o que aconteceu 1 hora depois. Ele foi rendido pelos bandidos e obrigado a dirigir até a PR-317, onde foi executado com três tiros na cabeça. Os dois ladrões disseram que pretendiam vender o carro por R$ 600 reais e gastar o dinheiro com drogas.

A morte do filho deixou Sandra sem chão e ela decidiu mudar de apartamento 1 mês depois. Ficou 2 anos na nova casa, quando decidiu retornar para a residência antiga. "Eu me mudei para tentar esquecer, mas acho que fui covarde em não querer ficar ali", relata. "Era muito triste, a casa tinha o cheiro dele e tinha medo de continuar naquela tristeza."

Roupas e pertences do filho também foram doados logo em seguida. Sandra guarda apenas objetos pequenos, como fotografias e fitas de vídeo. As lembranças estão armazenadas em uma caixa que somente ela tem acesso. "É muito difícil se desfazer de tudo, mas são coisas materiais. O bem mais precioso já se foi. Guardar todas aquelas coisas só iria me fazer sofrer."

Sandra decidiu doar os pertences de Tiago depois de ter de conviver com fotos do irmão já falecido espalhadas pela casa da mãe. "Aquilo me incomodava muito e não quis fazer o mesmo com meus filhos."

Chorar a portas trancadas não era o exemplo que Sandra queria dar aos filhos Carolina, 19, e Guilherme, 21. "Não queria que eles passassem por esse constrangimento, mas só Deus sabe a força que eu fiz para seguir em frente. A mãe é a que mais ama o filho e é a que mais tem de ter força porque ela precisa cuidar dos outros."

Comportamento
"O bem mais precioso já se foi.
Guardar todas aquelas coisas
só iria me fazer sofrer."

Passados 4 anos da morte de Tiago, ela diz que hoje consegui sorrir de verdade porque tem a convicção de que o filho está bem. Um sonho mostrou isso a ela. "Ele estava de branco e iluminado, dizendo: Mãe, chega, acabou. Não chore mais porque eu estou bem."

As lembranças de Tiago são a de um menino responsável que adorava comprar camisas. O jovem viveu com a mãe até os 17 anos, quando se mudou para Curitiba para fazer cursinho pré-vestibular e em seguida foi morar em Blumenau, com um amigo da faculdade.

"A gente gostava de passear de mãos dadas e sempre estávamos juntos nos campeonatos de equitação." Tiago era um hipista dedicado. "Mas nada faz mais falta do que um abraço."


‘Queria que eles morressem’
Fabíula, 12 anos, caçula de três irmãos, gostava de reunir a família, domingo de manhã, para tomar café. Ela abria a geladeira e colocava na mesa tudo o que encontrava nas prateleiras: margarina, leite, frutas, queijo e presunto. Era o único dia da semana em que pai, mãe e irmãos faziam a primeira refeição do dia juntos.

Depois da morte de Fabíula, em agosto de 2003, os cafés da manhã foram interrompidos. A mãe, Márcia Regina Coalio, passou a reservar as manhãs de domingo para ir ao túmulo da filha, rotina que seguiu por alguns meses até que um telefonema do filho mais velho, Fabrício, 26, mudou tudo.

"Ele me ligou quando eu estava no cemitério e disse: Pois é, mãe, nós três estamos em casa e não tem pão para a gente tomar café. A Fabíula já se foi, mas nós estamos aqui e acho que não era isso que ela queria."

O recado fez Márcia mudar de atitude perante a morte da filha. "Eu não podia abandoná-los porque eles precisavam de mim", relata. "Foi a partir daí que eu continuei a viver e a trabalhar."

A última conversa entre mãe e filha foi por telefone, minutos antes do acidente que mataria a adolescente. Fabíula disse à mãe que iria à locadora, mas antes passaria na lanchonete para pegar dinheiro.

Márcia estava no bar, atendendo clientes, quando viu Fabíula e uma funcionária atravessando a avenida. Segundos depois, ouviu comentários de um acidente. "Senti uma dor no peito e lembrei que tinha visto a minha filha atravessando a avenida." Márcia saiu do bar e encontrou a filha caída no asfalto. "Eu a peguei do chão e abracei, mas já estava morta."

Fabíula foi atropelada por Marcos Jesus da Silva, quando aguardava no meio-fio para atravessar a Avenida Colombo. Silva e Luiz Cavicchioli Forini apostavam uma corrida na noite do dia 13 de agosto de 2003 com os faróis apagados.

Revolta
"Como um ser humano consegue viver
sabendo que matou uma pessoa?"

O impacto arremessou a menina a 66 metros de distância. Apesar da gravidade do acidente, Silva fugiu do local, escondeu o veículo e só se apresentou à polícia 5 dias depois.

Os dois motoristas foram a júri popular 6 anos após o crime. Foram condenados por homicídio doloso, ingressaram com recurso para baixar a pena, mas perderam em todas as instâncias. Até hoje, nenhum dos dois cumpriu um dia sequer da pena. "Eu queria que eles morressem", desabafa Márcia. "Como um ser humano consegue viver sabendo que matou uma pessoa?"

A vida da família passou a ser dividida entre "antes" e "depois" da morte de Fabíula. Muita coisa mudou na casa dos Coalio, a começar pela residência.

Pai, mãe e os filhos deixaram o apartamento na Avenida Colombo, em frente ao bar de Márcia e próximo ao local do acidente, para uma casa no Conjunto Ney Braga. Milton, o pai, não quis mais trabalhar. Teve dois acidentes vasculares cerebrais, deixou o emprego de vendedor no qual ganhava R$ 5 mil por mês para se aposentar com um salário mínimo.

Felipe, o filho mais novo e o maior companheiro de Fabíula, entrou em depressão. Só depois de 4 anos o rapaz se recuperou. Márcia fechou o bar por alguns meses, mas repensou a decisão e se entregou ao trabalho. "A minha família nunca mais foi a mesma."

Roupas e objetos pessoais de Fabíula só foram doados há 1 ano e meio. Mas a mãe ainda preserva os cadernos da escola e da catequese e as peças de roupa preferidas da filha – uma jardineira e o pijama –, que estão no guarda-roupa de Márcia. As fotos da menina ainda estão pela casa e na parede do bar. "Todas as manhãs eu chego no trabalho, olho para a foto e dou bom dia a ela."


Conforto na religião
Nelir Constantino acreditava que a filha Márcia, 10 anos, seria uma ótima professora. Nas brincadeiras, era sempre ela que ensinava as amigas.

Adorava participar do coral da igreja e na cozinha devorava pão com ovo frito "com a gema firme" de manhã. Era prestativa e ajudava a mãe a organizar a casa. "É claro que quando estava muito afim de brincar ela lavava a louça resmungando", conta Nelir.

Passados quase 4 anos da morte da filha, a mãe voltou a cantar e sorrir. "Eu sobrevivi", diz ela. "É uma prova de Deus, que evitou que eu entrasse em uma condição que não pudesse cuidar de filhos, marido e da minha vida."

O nome de Márcia é sempre falado em casa, mas as lembranças são apenas de horas alegres em família. "Não lembramos dela em momentos difíceis e sim das risadas e das brincadeiras; é como se ela não tivesse partido", comenta Nelir.

Nos meses seguintes à morte, o assunto era tabu dentro de casa, mas o tempo deu liberdade para que pai, mãe e filhos voltassem a falar da menina. Mércia, 10, lembra da irmã nas refeições e quando ganha uma roupa bonita. "Queria tanto que a Márcia visse este vestido, aposto que ela iria amar", relata a mãe.

Márcia foi morta em 20 de outubro de 2007 pelo manobrista e animador de lojas Natanael Búfalo. Ele raptou a menina na Igreja Assembleia de Deus, local onde centenas de pessoas participavam de um encontro religioso, e a levou para casa.

Lá, a submeteu todo tipo de tortura. Em seguida, esganou-a até a morte, levou o corpo para um local ermo e ateou fogo. Búfalo está preso na Penitenciária Estadual de Maringá (PEM) desde novembro de 2007.

Recordações
"Não lembramos dela em momentos
difíceis e sim das risadas e das
brincadeiras; é como se ela não
tivesse partido."

Nelir questiona o que poderia ter sido feito para evitar a morte de Márcia.
Talvez a família não teria ido à igreja naquela noite ou deixado a filha brincar com as amigas no pátio do templo. "Mas cheguei à conclusão que era inevitável e que a falha não foi minha. Eu não queria que tivesse acontecido comigo, mas não aceito pensar que poderia ter sido com outra mãe porque jamais gostaria de ver uma amiga sofrendo."

Roupas e sapatos de Márcia foram doados. Em casa, há apenas fotos da menina com coroa de princesa em porta-retratos na estante da sala. "Eu gosto de deixar as fotos visíveis. Se eu as tirar daqui é como se eu estivesse tirando a minha filha do meu convívio."

A família mudou da casa onde vivia em Sarandi, apoiada pela igreja. Pai, mãe e os filhos passaram 1 mês em uma chácara e há 3 anos moram em um apartamento na Zona 6. "Agora eu vejo que foi bom não ter morado mais lá (na casa antiga)", conta. "Como houve a mudança, a sensação que sinto é como se ela (Márcia) tivesse viajado."

As palavras ainda faltam a Nelir para definir o sentimento pela morte da filha. Ela conversou alguns minutos com O Diário na quinta-feira, mas preferiu escrever uma carta, cheia de referências a passagens da Bíblia.

"Como encontrar força na angústia? Em duas letrinhas: fé. Esta é a resposta a todos quando desejam saber como estou enfrentando essa situação, com a fé que gera esperança, que gera paciência e amor", escreveu.

A tragédia da corrupção

CORREIO BRAZILIENSE, Rubem Azevedo Lima, 11 de abril de 2011


O ex-presidente Lula zombou, nos EUA, dos relatórios da Polícia Federal, publicados pela revista Época, sobre o chamado mensalão, que ele dizia não existir e ser invenção da direita brasileira, entidade sem cara, à qual ele atribuía todos os males do país.

Como seu amigo, senador Collor de Mello, que usou a caça aos “marajás”, para eleger-se presidente, Lula, falso esquerdista, que manteve todas as medidas conservadoras dos governos anteriores, fez o mesmo com o fantasma da direita no Brasil e elegeu-se.

Lula fora avisado pelo então deputado Roberto Jefferson e o atual governador Marconi Perillo, de Goiás, sobre os ratos da quadrilha do mensalão. De Jefferson, Lula disse que poria sua mão no fogo pelo deputado, mas fingiu não acreditar em sua denúncia.

Agora, engastalhado entre a revelação dos federais e a visão do procurador da República, que chamou seus amigos envolvidos no mensalão de “quadrilha de bandidos”, Lula faz graça com o processo contra essa quadrilha, nas mãos do ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, que o relatará.

Lula não sabe, mas os federais acharam o elo que faltava: a origem do dinheiro do mensalão, o Fundo de Incentivo Visanet, do Banco do Brasil, portanto, dinheiro público, protegido, em tese, mas não na prática, por seu governo. Pode-se dizer, hoje, que o mensalão, sob a “cegueira” de Lula, foi o maior escândalo da República, no Brasil.

Tal episódio torna a era Lula quase tão corrupta quanto a de Macbeth, de Shakespeare, que, aliás, tinha também sua “direita”: todos os seus opositores e alguns inocentes, que ele liquidou, um a um, enquanto pôde, até chegar sua vez de sair de cena, desmascarado.

Não se sabe como vai acabar nossa tragédia. A de Shakespeare, cruenta, acabou politicamente bem. Dilma jurou combater a corrupção no país. Espera-se, pois, que nossa tragédia não acabe em comédia, na qual o bobo da corte não seja o Tiririca, mas todo o povo brasileiro.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

'Barão da merenda' é preso em Higienópolis

O ESTADO DE S. PAULO, 24 de setembro de 2010

Dono de empresa de alimentação com contratos em mais de 40 cidades em 9 Estados, Eloízo Durães é acusado de pagar R$ 175 mil a vereadores de Limeira para barrar CPI


Dono da maior empresa de merenda do País, a SP Alimentação, o empresário Eloízo Gomes Afonso Durães foi preso ontem às 7 horas em Higienópolis, região central de São Paulo. Alvo da investigação da máfia da merenda, Durães teve a prisão decretada pela Justiça por causa de propina de R$ 175 mil supostamente paga a dois vereadores de Limeira (SP). Um deles, Antônio Cesar Cortez (PV), conhecido como Quebra Ossos, é candidato a deputado estadual.

Durães foi detido em seu apartamento por homens do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra). Com contratos assinados em nove Estados, sua empresa atendeu desde 2006 mais de 40 prefeituras, entre elas de quatro capitais - São Paulo, Recife, Maceió e São Luís. Ao lado da J.Coan, a SP Alimentação é suspeita de chefiar um esquema que movimentou R$ 280 milhões em notas frias, fraudou licitações, praticou cartel e corrompeu políticos e funcionários públicos. Durães nega os crimes.

O dinheiro em Limeira teria sido entregue entre 2007 e 2008 para que a Comissão de Orçamento e Finanças da Câmara de Limeira arquivasse a investigação sobre contrato de R$ 56,3 milhões da empresa com a prefeitura. O então vereador Carlos Gomes Ferraresi, presidente da comissão, teria recebido R$ 35 mil de Durães para votar contra abertura de CPI. Como seria necessário mais um voto na comissão para arquivar o pedido, o empresário teria mandado um funcionário negociar o suborno.

Atual testemunha protegida dos promotores do Grupo de Especial de Repressão à Formação de Cartel e Lavagem de Dinheiro (Gedec), do Ministério Público Estadual (MPE), esse funcionário revelou detalhes da negociação. Ele disse que em 22 de novembro de 2007 Durães lhe passou "a missão". No dia seguinte, procurou o vereador Cortez, que exigiu R$ 300 mil, mas teria concordado em receber R$ 140 mil em quatro parcelas - três de R$ 40 mil e uma R$ 20 mil, pagas entre 6 de dezembro de 2007 e 5 de março de 2008. Uma planilha com a autorização para pagamentos de Durães foi apreendida pelo MPE em julho.

Eleições. Cortez só escapou da cadeia porque a lei eleitoral não permite prisão de candidatos 15 dias antes das eleições - salvo em caso de flagrante. Segundo a denúncia do MPE, o vereador lavou o dinheiro da propina comprando um apartamento em Campinas.

A defesa de Durães vai pedir revogação da prisão. Para sua advogada, Elizabeth Queijo, trata-se de prisão "arbitrária", feita "sem motivação concreta". "Na semana passada, Durães compareceu à oitiva no Ministério Público, cumprindo carta precatória de Limeira, e respondeu a tudo o que foi perguntado." Cortez alegou inocência e disse que continuará sua campanha. Ferraresi não quis manifestar-se. A prefeitura de Limeira informou que o contrato com a SP Alimentação acabou em 2009.


PARA LEMBRAR
Investigação começou
no Rio Grande do Sul

A investigação sobre os crimes da máfia da merenda nasceu em 2007, no Rio Grande do Sul. Em São Paulo, o Ministério Público abriu apuração em 2008 para averiguar suspeitas de fraude em licitação e formação de cartel envolvendo fornecedoras de merenda à rede de ensino da cidade. Em agosto, promotores descobriram documento mostrando supostos pagamentos de propina da SP Alimentação a 20 cidades de quatro Estados. Além disso, um laudo mostrou haver na merenda alimentos com validade vencida e em quantidade inferior a dos contratos.